Se eu não me protegesse tanto

Talvez eu esteja perdida. Tão solta no interior de mim mesma que acabo esquecendo de sair dali. Eu não quero, mas devo. É o que esperam de mim, é o que eu deveria esperar. Mas está tão confortável aqui que quase jogo fora a chave, e daqui do alto, nem dá pra pular da janela. 
Lá embaixo, no asfalto da realidade, estão todos os meus medos. E venho os evitando assim que descobri os ter. É, cara, talvez eu só esteja perdida, tão perdida. Dentro de pensamentos que não consigo pôr em ordem, que não sei de onde vem, para onde vão e muito menos para que servem. A única certeza nessa miscelânea toda é de que tudo isso cabe dentro de mim. E eu me afoguei.





Se eu não me protegesse tanto, talvez o sol brilhasse mais, as flores teriam cores mais vivas e o riso demoraria a cessar. Não, manter a proteção nunca causou desconforto algum, nem privou das risadas, mas manteve-me numa bolha de cores neutras por muito tempo –tanto tempo que ainda temo estar nela. 

Se eu não tivesse tanto medo de arriscar, talvez o colorido seria outro e talvez tantas outras coisas... Mas minha proteção é intrínseca, e não aprendi a ser de outro jeito. Ah, cara, se ela não criasse um muro bem alto que cerca minhas emoções, talvez eu explodisse de amor por aí, apaixonada por qualquer pedrinha no caminho. É como gostaria que fosse. 

O pior disso tudo, rapaz, é que o tal muro me protege apenas do alheio, mas deixa tudo acontecer aqui dentro. E dentro dos muros é o onde o estrago acontece. Sem ser visto, sem emitir qualquer som, sem gritar que está ali. E eu vou sentindo; e vou guardando. Mesmo sabendo que todo sentimento ocupa lugar, todo pensamento consome energia. Tudo que eu guardo se torna tão meu, e tão pesado, que quase conta nos números da balança. 

Nem mesmo alcanço o topo do muro, para espiar por cima. Nem posso arrancar um tijolo –tenho medo que tudo desmorone sobre mim, como se isso já não estivesse acontecendo. E está, mas o muro impede que seja público, é nessas horas que agradeço por tê-lo ali, minha segura fortaleza de tão fácil acesso para mim. 
E eu derrubaria o tal muro, cara. Pedaço por pedaço, tijolo por tijolo, se não tivesse guardado cartas entre eles, se não tivesse rebocado um e outro durante a construção, se não tivesse ajudado a cria-lo. 

Se eu não me protegesse tanto, moreno, talvez não fosse eu.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

© Todos os direitos reservados | 2016
Desenvolvimento por: Larissa Mocellin (part.Jaque Design) | Tecnologia do Blogger.
imagem-logo