Para aquela que se foi

Eu só queria saber, moreno, quando foi que eu deixei tudo isso acontecer. Eu costumava chamar a gente de tudo, rapaz, mas agora me refiro só a mim mesma. O tudo que eu deixei acontecer, fui eu.
Desculpe a redundância de “eus” no parágrafo, é para que fique bem claro. E além de ter feito tudo isso, queria saber quando essa eu interior que habita dentro de mim, vai voltar ao normal.

Todo mundo sabe, cara, que ela tá aqui, escondida em algum lugar desse emaranhado, morrendo de medo de dar as caras. Dê deixar a beirada da saia aparecer, de dar algum sinal de que ainda está viva. Ah, coitada! Mal sabe ela que eu não preciso de sinal algum para ter certeza de que quando se permitir espiar, vai querer tentar.

Mas é exatamente por isso que ela ainda está lá. Dê que adiantaria gastar energia querendo tentar, quando esta que vos fala não consegue? Ah, moreno, só queria saber quando isso tudo vai mudar. Quando eu vou calçar os mesmos All Star de sempre, mas sair com a cara dela? A cara daquela menina-mulher que costumava ser eu.  Que via a tudo –e a todos- como possibilidade.


E essa é a questão, meu caro, quando é que eu vou voltar a ver as possibilidades como algo bom, sem jogar a tua perda nelas? Quando outros caras, com olhos e mãos diferentes vão voltar a representar uma possível história com final feliz, seja ela no âmbito amoroso ou não? Quando eu vou largar essa mania de arrastar a tua dor comigo?
Foi mal, cara, eu disse tudo errado. Essa dor não é tua, nunca foi. Essa dor é minha e só minha. Nem dela, que se encontra no fundo da minha mente –e que sorte. Pertence apenas ao meu eu atual, que não consigo abandonar.

É que eu não era assim.
Eu era daquelas que via oportunidade em tudo e não tirava o sim da boca. Que frequentava festas sem medo de tropeçar num sexo casual ou no amor da minha vida. Porque eu não tinha medo, rapaz. Eu dava a cara a tapa, tava lá pra apanhar. E no dia seguinte, com sorte, morreria de ressaca por umas três ou quatro horas, com azar, tinha lapsos de memória, no pior dos casos: não sabia o nome do cara no travesseiro ao lado. Mas eu não tinha medo, e agora tô cheia dele.

E é pro mundo saber, que quem se foi fui eu, e tô tentando me encontrar. Lutando mesmo. Eu sinto falta da gente, rapaz, mas a saudade já passou. Só que eu sinto saudades dela, e você a assustou. Assustou aquela que sorria pra mim todo o dia no espelho e que saía em busca de outras coisas, outros sorrisos e outros amores.
E eu só queria saber quanto tempo vai durar. Quando ela vai voltar? Quando vai ver outro par de olhos que digam “vem, destrói esse muro atrás do qual se esconde”, e obedecer? E concordar? E ver que tem que ser assim. É assim.

Ela tem que voltar, eu tenho. Aprisionar sentimentos nunca levou ninguém a nada, não espero ser a primeira. E ela vai. Eu vou tentar e conseguir, porque se não der para destruir o muro, eu pulo!
Pulo e vou correndo pros braços da vida e de quem mais ela trouxer.
Eu vou, porque já me perdi uma vez, e não quero mais soltar.



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