Na primavera

Foi tudo bem simples, um olhar aqui, outro ali. Gentilezas soltas por aí, tipo primavera que se anuncia aos pouquinhos e a gente começa a perceber pelo colorido. Meu colorido começou no estômago. As borboletas eram de várias cores, tamanhos e desenhos em suas asas. E como eu gostava delas.
Foi um toque ali, outro aqui, conversas leves como o vento. Não era preciso esforço, a réplica vinha naturalmente, assim como voltava. A risada então, ah, era sintonia com o canto dos pássaros. E olha que eu nunca fui de prestar atenção nessas coisas, moreno. Apressada e com a agenda sempre lotada de itens, para que tudo saísse como eu queria, não teria sido novidade se eu tropeçasse num amontoado de pétalas para notá-las.

Mas eu notei. Começou com o colorido, depois veio o aroma –e, às vezes, ele até ficava na minha blusa. A melodia foi além da música que, tempo depois, escolhemos para tomar como nossa –mesmo que não fosse. E, ah, moreno, as inúmeras noites que dançamos embaixo daquele ipê rosa que eu tanto gostava. Era primavera e até as pétalas que se perdiam entre meus cabelos fizeram falta depois.

Quando o despertador tocou e a realidade derrubou a porta, contra nossa vontade, eu costumava voltar ao ipê e deitar no chão, sobre as pétalas. Olhar o céu azul e sentir o cheiro familiar quase resultava em um sonhar acordada, quase.
Ah, moreno, eu não entendia nada disso, e por isso gostava. A realidade que bateu na porta, era minha. E ela gritava: Acorda, menina! Isso é paixão, e ela passa! Estou facilitando pra você! E eu tentei, como tentei manda-la embora. Trocar a fechadura, pintar a porta, cogitei até mudar de endereço, mas de nada adiantaria. Ela era minha, e eu tinha que tomá-la como tal.

Minha realidade gritava na minha cara que aquilo não era para mim, não. E estava acabando com tudo, para que eu tivesse apenas lembranças boas, evitando que cometesse uma mancada –ou fosse vítima. Estava vivendo tudo aquilo sem nem pensar. Eu não queria pensar  –só sentir. Porque embora não tivesse tempo para reparar em nada e meus olhos vivessem colados na folha preenchida da agenda, eu gostava de sentir. Sentir tudo, e sentir por inteiro. E foi o que fiz, e fiz direito. A autossabotagem foi o elemento surpresa, moreno.
E quando parei para pensar, a razão tomou conta do sentimento. Arrancou as pétalas, poluiu o ar, matou as borboletas. E me deixou lá, sobre o amontoado de pétalas caídas, já sem cor. Rodeada pelas borboletas definhando e com o coração nas mãos. E foi preciso que eu fosse embora, para que voltasse a florescer. Para outra pessoa, outro par de nomes gravado no meu ipê cor-de-rosa, outra espécie de borboleta. A realidade não me deixou continuar, ela berrou um “Acorda, menina!”, e eu acordei.
 Só que, às vezes, a gente só tem que sentir. Eu senti, moreno, com todas as partes de mim, até as que eu nem sabia que tinha. E eu amava isso, eu amava tudo e amava você, porque eu não entendia.
Talvez esse tenha sido o problema, eu não tinha que entender nada, só amar.

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