Eu ainda sou nós, mas isso não era nosso

_Oi, tô com saudades.
_Quem é?
_Sou eu.
_Eu? São duas da manhã, acho que ligou pro número...
_Sou eu, moreno. 
_Você?! 
_É, eu. 
_Mas já faz tanto tempo. 
_É, eu sei. 
_Tá tudo bem? 
_Se ligar para o amor de escola às duas da manhã significa estar tudo bem, estou. 
_Ei, fazem sete anos. 
_E acha que eu não sei? O tempo passou aqui também. Mas tô com saudades.
_Você quem decidiu terminar tudo. Disse que precisava amadurecer, que namoro de escola não dava em nada.
_Eu sei, não precisa jogar na cara.
_Desculpe. Ligou por quê? 
_Porque o tempo passou. 
_Não se arrependeu? 
_O que?
_De nós.
_Ah, não, aquele amor não era nosso. 
_Oi? 
_É, moreno, era um amor de colegial, e você sabe, não dão certo. 
_Hum, quantos foram depois?
_Três, e você? 
_Quatro. 
_Bonitas? 
_Todas, mas nenhuma com a mesma cor dos olhos. 
_Nenhum com o mesmo tom de pele. 
_Ah, a pele.
_É, ficava dourada no sol.
_Você lembra.
_Preferia não lembrar. 
_Por quê? 
_Porque eu ainda sou nós. 
_O que?
_Eu ainda sinto teu perfume marcante quando passo mais de quinze minutos no parque, e chorei quando cortaram nossa árvore no ano passado.
_Nossa árvore?
_É, aquela que marcou nossos nomes. 
_Ah, cortaram? 
_Sim. E o azul dos teus olhos ainda me incomoda de vez em quando.
_Incomoda? 
_É, parece que foi ontem, sabe? Acho que estou perdendo a noção do tempo. 




Nós amadurecemos, eu moro sozinha e você não precisaria mais entrar pela porta dos fundos. Aposto que poderíamos beber bem mais que uma taça de vinho para que seus pais não notassem diferença na garrafa. E, bom, eu não ia precisar dormir tão cedo... 
Eu não queria ligar dizendo que sinto falta. Que ainda lembro de tudo. Que essa saudade é diferente e bem maior que aquela que eu costumava sentir quando viajava com seus pais no fim de ano. Mas a culpa foi minha de querer por o ponto final numa história que só precisava de um novo parágrafo. Depois de muitas aulas de português, eu aprendi, não dá pra terminar uma história sem final. E foi o que eu fiz.
Coisas inacabadas me incomodam, acho que esse é o problema. Sinto a gente inacabados, falta um final ou uma continuação, mas sabe moreno? Já fazem sete anos. Sete anos sem ler essa história, eu só me lembro dos personagens principais. Aposto que não lembra nem disso. Eu mandei me esquecer, acho que foi o que fez. Mesmo que tenha me feito sentir aquele amor que tenho certeza não ser nosso. 
Ele passou, eu passei, nós passamos. Mas eu ainda sou nós, moreno. Dá cabeça aos pés, ida e volta.
_Oi? Ainda está aí? 
_Ah, sim, desculpe, eu... deixa pra lá. 
_Um café?
_Ah, não, eu parei de beber.
_De beber café?
_É, não fazia mais efeito, agora prefiro algo mais forte. 






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