A ressaca do amor

Não era como se naquela época eu fosse acreditar em mim mesma agora. Porque eu não ia. Se chegasse a ter isso em mãos, com certeza meu estômago apertaria um pouquinho, até me certificar de que ninguém havia me visto com este texto maldito, rasgaria em pedacinhos, enrolaria em papel higiênico e colocaria no lixo do banheiro da escola. 
Sairia andando como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse lido meu futuro num pedaço de papel idiota. Eu ignoro tanta coisa, ignoraria isso também e, só na hora de dormir é que aquelas frases viriam em mente. Mas elas já estariam no aterro àquela hora, junto com o monte de lixo orgânico. Sem chances de salvar. 

E escrever isso agora também não adianta, já que passou. Eu não tive esse texto em mãos antes, e se tivesse, teria jogado fora. Nem eu mesma dou credibilidade aos meus avisos. Mesmo assim os registro. 



Encontraria com ele no fim da escada e trocaríamos alguns beijos, cuidando para não sermos pegos. A escola sempre foi muito rigorosa, nada de namoros, nem no portão. Só que naquela época eu não tava nem aí -nem agora, eu beijo onde quiser. A questão nunca foi o onde, e sim o quem. E embora eu tenha escrito dezenas de textos para o beijado, esse aqui é para quem beija. 
Ele não se importa contigo. É verdade que gosta, sim, mas bem pouquinho. E você nunca foi de aceitar pouquinhos, não é mesmo? De pouquinho em pouquinho a galinha enche o papo, mas a gente nunca foi galinha -nem gostou de encher o papo. Antes que seja tarde de mais, risca do teu futuro o nome dele -que veja só, eu nem me lembro mais. Virou um alguém sem nome. 

Sei que tu não acreditas, ele não pode ter ficado tão para trás a ponto de não lembrar mais o nome -já que costumava brincar com o sobrenome dele depois do teu nome. Eu lembro do sobrenome, sim, mas descobri que não é tão incomum quanto achava. Eu costumava achar tudo nele incomum, ou melhor dizendo, raro. É difícil segurar o riso ao lembrar disso. Com o tempo vai descobrir que de raro ele não tem nada, e que o padrão é muito -mas muito! - comum. 
Esse texto estúpido é para te avisar de que as lágrimas não valem, nem mesmo as de emoção. Nada em relação a ele vale o preço da tua máscara de cílios. Contudo, aprendemos muito. E é por isso que eu não sei o que quero dizer aqui -a gente continua com aquele hábito de escrever até ver no que dá, esse texto é um daqueles.

Minha intenção inicial foi dizer para que ficasse longe, evitasse e desviasse qualquer olhar -mesmo que ele fosse gato, e era. Beijo no fim da escada? Jamais! Mas seria completamente hipócrita em dizer isso -eu continuo beijando no fim das escadas. 
Então, acho que devo dizer: continua. Continua nesse caminho, e beija ele muito -eu lembro do cabelo bagunçado que a gente adorava. Quebra todas as regras que puder, bem mais do que as que eu quebrei. Seja pior, se empenhe, faça o que quiser. E o ame. Ame muito. Ame mais. 
Ame porque o amor foi tudo que sobrou. Eu esqueci o nome, mas não o amor. E é por causa dele que estou escrevendo -eu não sei escrever sem amor, nunca soube. Ao longo da vida, encontrei muitos dele para fonte de inspiração, e embora reconheça o padrão de longe, eu o adoro. E continuo repetindo, mesmo que a máscara de cílios ainda seja cara o bastante para conter meu choro. 

Esses alguéns sem nome que passam pelo nosso caminho e nos beijam ao fim de escadas, infelizmente valem a dorzinha no estômago que causam no fim. E você não sabe, mas há um fim, e ele não falha. O que sempre falha são esses caras-padrão que eu continuo deixando entrar na minha vida e fazer uma baguncinha por aqui. Mas tudo bem, eu virei especialista em arrumar bagunça padrão. 
E em escolher drinks. Acredite em mim, porque já experimentei todo o cardápio -não de comidas. Ou pelo menos o cardápio de bebidas disponível na cidade e arredores. Por isso só aceito convite para jantares, recuso os para drinks. É claro que quero beber e experimentar mais milhões de cardápios, mas isso faço sozinha. E a cima de tudo, preste atenção no que eu disse no início: risca do teu futuro o nome dele, do futuro, não do presente. 
                       Após tanto tentar curar amor com ressaca, eu entendi que a gente só cura amor com amor
E eu prefiro sofrer de amor que por ressaca. 



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